Tão bom quanto ter um amor é ter um ex-amor. Ou um amor diferente por alguém que um dia você já amou de forma única, visceral. Não que um sujeito apaixonado deseje ou espere que a atual cara-metade desatualize, que o amor acabe ou mude – mesmo que isso, o fim, provavelmente acontecerá, ainda mais quando se está na casa dos 20 e tantos anos.
É impar conversar com alguém que um dia – ou um mês, ou um ano, ou uma vida – você já amou. Alguém que um dia você imaginou que não conseguiria viver sem. Só que a vida andou e o seu caminho foi para outro lado. Mas um dia os caminhos voltam a se encontrar. Quase sempre, não há retorno. Os caminhos podem até ficar paralelos, e como todos caminhos paralelos, não se juntam. E não há nada de triste, amargo ou cruel nisso.
Mas um ex-amor. Ah. As feridas não doem mais. As cicatrizes já estão fechadas. E mesmo elas, com o tempo, vão sumindo, até ficarem da espessura de uma linha fininha, quase invisivel, geralmente situada entre o coração e o fundo da gaveta onde, esquecidas, repousam as memórias.
Se não há sentimentos mal resolvidos, um ex-amor pode ser generoso. Pode saber ouvir melhor que um terapeuta. Dar conselhos melhor que o melhor dos amigos. Porque é desinteressado. Porque ama sem amar. Ama a distância.
Um ex-amor é bom para lhe lembrar que amar pode ser verbo intransitivo, mas o objeto do amor transita de um lado para o outro, solto, em busca de um predicado para chamar de seu.






